Há dois anos, o Hospital Adventista Pênfigo (HAP), em Campo Grande (MS), escrevia uma das páginas mais importantes da história da saúde pública de Mato Grosso do Sul. No dia 23 de julho de 2024, a instituição realizou o primeiro transplante hepático do Estado, um marco que mudou definitivamente o cenário da alta complexidade para pacientes que, até então, precisavam viajar milhares de quilômetros em busca de tratamento.
Uma trajetória marcada por pioneirismo, excelência técnica e, principalmente, vidas transformadas. Nesse período, foram realizados 97 transplantes de fígado, reduzindo significativamente a fila de espera estadual e oferecendo uma nova oportunidade a pacientes que antes enfrentavam longos deslocamentos e incertezas em busca da cirurgia.

Mais do que um serviço, o transplante hepático tornou-se o ponto de partida para a criação do Centro de Transplantes do Hospital Adventista Pênfigo, que atualmente também realiza transplantes de córnea e rim e já possui habilitação do Ministério da Saúde para os transplantes de pâncreas e tecido musculoesquelético, consolidando a instituição como uma das principais referências em transplantes da região Centro-Oeste.
Um divisor de águas para a saúde do Estado
O primeiro transplante hepático foi resultado de cerca de dois anos de preparação, que envolveu investimentos em infraestrutura, aquisição de equipamentos, modernização de setores estratégicos, capacitação de equipes e organização de toda a linha de cuidado ao paciente transplantado.

O primeiro beneficiado foi João Marcos Vargas, morador de Ponta Porã, que convivia com cirrose hepática avançada. Antes da implantação do serviço, pacientes sul-mato-grossenses precisavam ser encaminhados para estados como São Paulo, enfrentando viagens longas e desgastantes, muitas vezes incompatíveis com a gravidade do quadro clínico.
A implantação do programa permitiu que esses pacientes passassem a receber atendimento próximo de suas famílias, com maior agilidade e acompanhamento integral durante todas as etapas do tratamento. Para a coordenadora da Central Estadual de Transplantes (CET), Claire Miozzo, o pioneirismo do HAP deve ser reconhecido. “O Hospital Adventista Pênfigo acreditou nesse projeto quando muitos ainda o consideravam inviável. Com planejamento, dedicação e muito preparo, estruturou um serviço de excelência que hoje transforma a realidade dos transplantes em Mato Grosso do Sul”, destaca.
Ciência, fé e compromisso com a vida
Responsável técnico pelo programa de transplantes, o cirurgião Dr. Gustavo Rapassi resume a essência do trabalho desenvolvido pela equipe. “Se você parar para pensar que estamos pegando o órgão de alguém que já morreu e colocando em alguém que estava morrendo, não tem como não acreditar em milagres”, analisa.
Rapassi ressalta que o sucesso do programa é resultado de um trabalho coletivo. “A verdade é que há muitas mãos fazendo tudo isso acontecer. Sozinho eu não faço nada. Sou profundamente grato a toda equipe, aos pacientes que confiam em nosso trabalho e, de forma muito especial, às famílias dos doadores. Sem esse gesto de amor, nada disso seria possível”, reflete.
Da excelência em fígado à expansão do Centro de Transplantes
O sucesso do transplante hepático abriu caminho para novas modalidades.
O HAP implantou o transplante de córnea e, em abril de 2026, iniciou oficialmente o transplante renal. Antes mesmo da realização das primeiras cirurgias, o hospital estruturou um ambulatório especializado para acompanhar pacientes em diálise e prepará-los para o procedimento.
A expansão responde a uma necessidade importante da população. Atualmente, 20 pacientes aguardam por um transplante de fígado e 281 esperam por um rim em Mato Grosso do Sul.
Segundo a nefrologista do HAP, Dr.ª Daniele Yamada, coordenadora do transplante renal, a oferta do serviço no próprio Estado representa uma mudança significativa para os pacientes. “O transplante renal devolve qualidade de vida e independência para quem convive diariamente com a diálise. Poder oferecer esse tratamento perto da família faz toda a diferença no processo de recuperação e acompanhamento”, explica Yamada.
Histórias que representam uma nova oportunidade
Mais do que números, o Centro de Transplantes é formado por histórias de recomeço. O construtor civil Carlos Krug, 30º paciente transplantado de fígado pelo HAP, relembra o momento que mudou sua vida. “Eu tinha poucas chances de sobreviver e, no meu caso, só um milagre mudaria minha história. Esse milagre aconteceu. Nunca vou esquecer quando o doutor Gustavo entrou no quarto e disse que eu me preparasse porque, às 13 horas, receberia um novo fígado. Hoje, oito meses depois, só tenho gratidão a Deus e a toda equipe”, emociona-se.
Outra história marcante é a da servidora pública Jaqueline da Cruz, paciente do transplante renal. Após anos de hemodiálise, recebeu o telefonema mais esperado justamente no dia do seu aniversário. “Jamais imaginei receber um rim no dia do meu aniversário. Foram muitos anos de espera e de tratamento. Hoje posso voltar a fazer planos e viver uma nova vida”, celebra.
Gratidão por uma história construída por muitas mãos
Para celebrar os dois anos do Centro de Transplantes, o Hospital Adventista Pênfigo realizou um culto especial de gratidão, reunindo pacientes transplantados, familiares, colaboradores, equipe multiprofissional, lideranças e autoridades da saúde.
O momento foi dedicado a agradecer pelas vidas transformadas e reconhecer o trabalho de todos os profissionais envolvidos nessa missão. “Celebrar esses dois anos é reconhecer que Deus tem guiado cada passo dessa história. Somos gratos por cada paciente atendido, por cada profissional envolvido e por cada família que voltou a ter esperança. Seguimos comprometidos com a missão de cuidar das pessoas e ampliar o acesso a tratamentos que transformam vidas”, afirmou o diretor-geral do hospital, Everton Martin.
Um futuro que continua sendo escrito
Mesmo sendo uma instituição de médio porte, o Hospital Adventista Pênfigo tornou-se protagonista na alta complexidade em Mato Grosso do Sul ao unir investimento, qualificação profissional, inovação, atendimento humanizado e uma forte parceria com o poder público.
A trajetória iniciada em julho de 2024 com o transplante hepático segue crescendo. Hoje, o Centro de Transplantes reúne os serviços de fígado, córnea e rim, já possui habilitação para pâncreas e tecido musculoesquelético e continua ampliando o acesso da população a tratamentos de alta complexidade.
Mais do que celebrar dois anos de história, o HAP celebra centenas de vidas transformadas e reafirma seu compromisso de continuar levando esperança, cuidado e novas oportunidades para quem mais precisa.
Fotos: Ericson Kritkovski


